Da feira à lanchonete, clientes e donos de pequenos negócios preferem a nova modalidade de pagamento digital em tempo real, que conquistou usuários durante a pandemia.

Vinícius dos Reis

É com uma caixa térmica cheia de doces pendurada no pescoço e uma chave Pix impressa e plastificada no bolso, que Marcos Vinícius dos Reis percorre cerca de 18 quilômetros por dia para ajudar a mãe a sustentar oito filhos. Desde 2019, o rapaz vende bombons com sabores regionais no Núcleo Cidade Nova, peregrinando entre lojas e órgãos públicos. O produto custa R$ 3,00 a unidade, mas foi só depois que passou a andar com a chave Pix que as vendas dobraram sem ele percorrer nenhum quilômetro a mais.

O jovem, morador da Avenida Boa Esperança, no Bairro Laranjeiras, revela que não é alfabetizado e que vendia cerca de 40 bombons ao longo do dia, apenas no dinheiro. Depois que seu irmão mais velho “instalou” Pix, imprimiu a chave em um pequeno pedaço de papel, plastificou e entregou a Marcos Vinícius, o negócio deu uma guinada, ajudando a atravessar os tempos sombrios de pandemia. “Ofereço o bombom para muitas pessoas. Quando um cliente diz que não tem dinheiro, eu respondo: ‘aceito Pix’. Desde que passei a andar com esse papelzinho, as vendas dobraram. Agora, saio de casa com 80 bombons e não volto com nenhum. Os mais procurados são de castanha-do-pará e cupu”, revela o rapaz.

A experiência de Marcos Vinícius com Pix é também a de muitos outros marabaenses que estão na informalidade ou mantêm um pequeno negócio como microempreendedor individual. 

Antônio José Pereira dos Santos

O relojoeiro Antônio José Pereira dos Santos, de 41 anos, mantém-se com uma banca na Feira da Marabá Pioneira desde 1997. Pereira diz que mais de 50% da venda ou conserto de relógios são feitas no Pix, numa disputa direta com os negócios em dinheiro vivo. “Os vizinhos (comerciantes ao lado) resistem ainda em operar com o Pix e a venda acaba chegando na minha banca”, agradece.

A 15 metros da banca do relojoeiro, Glauber Guilherme Gama Silva vende sandálias de dedo, bolsas, carteiras e máscara. Orgulha-se de ser chamado de o “Rei do Pix” e celebra que a nova modalidade seja responsável por mais vendas que cartões de débito e crédito. “Tô quase pra não aceitar cartão, só Pix”, brinca.

Ana Maria

Outra que está com sorriso largo com a transferência eletrônica automática e sem taxa cobrada na operação é a cozinheira Ana Maria Sousa Santos. Há mais de 12 anos ela vende refeição em uma banca na Feira da Avenida Getúlio Vargas, na Marabá Pioneira. O Pix, segundo Ana Maria, passou a ser adotado há cerca de um mês e resume seu sentimento com duas palavras: “Experiência ótima”.

Todavia, em seguida, confessa que um casal, há cerca de dez dias, almoçou, simulou pagar a conta e até lhe mostrou a tela do celular, mas a transação ainda não havia sido concluída. “Passei a ser mais cautelosa dali para frente. Temos de nos adaptar a essa nova realidade, mas redobrar os cuidados”, reconhece.

Dona de um café da manhã no Bairro Novo Horizonte, Marli Gonçalves orgulha-se de possuir MEI e atender até mesmo o poder público em algumas ocasiões. Mantém uma funcionária e o negócio vai de vento em popa, graças ao bom atendimento e à chegada do Pix, a ferramenta preferida por seus clientes na hora de realizar pagamentos, já que boa parte alega que não anda com dinheiro. 

Temos priorizado essas transferências pelo fato de não ter taxa (das máquinas de cartão) e o dinheiro cair na hora. Os meus fornecedores também aderiram ao Pix e não preciso mais fechar meu negócio para fazer compras. Depois que eu transfiro, eles fazem a entrega", diz ela, destacando que o Pix já representa mais de 50% dos pagamentos em seu negócio.

Marli revela que abriu o negócio em plena pandemia e que o Pix foi determinante para dar mais segurança aos clientes e para ela mesma. “Antes do Pix, eu perdia venda ou tinha de vender fiado. Agora, o dinheiro cai automático na minha conta”, comemora.

É domingo. A Feira da Laranjeiras – a segunda maior da cidade – está repleta de clientes porque é final de agosto e o salário da Prefeitura e outros órgãos públicos já está na conta. A jovem Karoline Bezerra da Silva, 24, decidiu fazer uma experiência para comprar, sem dinheiro, tudo que precisasse na feira livre. Levou alguns “nãos”, mas também comprou praticamente tudo que precisava para casa.

Jambu, tucupi, feijão do Norte e açaí foram alguns dos itens comprados usando tão somente a chave Pix. Karol, como gosta de ser chamada, acredita que cada negócio que os outros vendedores perdem é um alerta de que precisam se reinventar na forma de atender os clientes. 

Karol segue uma tendência que caiu na graça do brasileiro desde o fim de 2020. Lançado em novembro, o Pix já superou o boleto bancário, o cheque e as transferências por meio de Doc, Ted e Tec, em número de transações. 

Um dos que estavam entusiasmados com a venda para Karol era o verdureiro Gedson dos Reis Silva. Uma das referências na Feira da Laranjeiras, ele reconhece todos os detalhes no negócio são importantes para atrair novos clientes e mantê-los lembrando de sua banca. “Ambiente limpo, bons produtos, atendimento diferenciado e diversas formas de pagamento são essenciais. Com essa moeda digital na minha conta”, diz ele.

Gedson dos Reis Silva

Gedson observa que as vendas por meio do Pix cresceram, passando o cartão de débito e crédito e já chegam a até 60% em alguns dias. Diz que tem clientes de todas as faixas etárias, mas que os que perguntam mais pela transferência eletrônica são os mais jovens. “Ainda não tenho uma plaquinha aqui com os dados da minha chave Pix, mas sinto que já preciso fazer isso porque tem horas que são muitos clientes para atender”, justifica.

Karol tentou comprar açaí em duas bancas, mas nenhuma delas aceitava Pix. Quando avistou uma senhora baixinha e com apenas um isopor na calçada, avaliou que ela não fugia à regra dos outros de seu segmento. Errou.

 

Dona Keila Lima de Souza disse que a jovem não voltaria para casa sem levar açaí. Cobrou dez reais em cada litro, forneceu a chave Pix de cabeça e concretizou o negócio. “Vendo cerca de 400 litros por semana. A maioria já é pelo Pix. Venho de Itupiranga duas vezes por semana para esta feira. Já tenho muitos clientes aqui em Marabá”, orgulha-se Keila.

BOM PARA UNS, RUIM PARA OUTROS

Segundo os dados do Banco Central, 79% das transações de Pix são feitas entre pessoas físicas. E a maior parte tem idade entre 20 e 29 anos. As transações entre pessoas físicas e empresas ainda são baixas, mas tendem a avançar bastante nos próximos meses com a adesão de redes de varejo. 

Hoje, as transações de Pix feitas por pessoa física são isentas, mas a pessoa jurídica paga uma taxa – menor do que a das transferências tradicionais. Mas isso também pode mudar, dependendo do mercado.

Quem mais sofreu com essa expansão do Pix foram as transferências feitas por meio de Doc, Ted e Tec. De novembro do ano passado até julho deste ano o número de transações mensais nessas modalidades caiu 41%, enquanto o Pix avançou 1.733%, segundo o site do BC. 

EXPLICA AÍ, TIO!

De acordo com o Banco Central, o novo meio de pagamentos foi batizado com o nome Pix porque o termo lembra tecnologia, transações e pixels (os pontos luminosos de uma tela). Ou seja: Pix é um nome, uma marca criada para identificar o novo meio de pagamentos de uma forma simples, efetiva e muito fácil de ser lembrada.

 

Nos últimos cinco anos, o número de formalização de Microempreendedores Individuais (MEIs) em Marabá cresce de forma surpreendente. Segundo dados da Sala do Empreendedor, que funciona na Secretaria Municipal de Mineração, Indústria, Comércio, Ciência e Tecnologia, 2021 deve bater recorde de abertura de novos MEIs, apesar de ainda estamos em ano marcado pela pandemia do novo coronavírus.

Em 2017, foram criados 1.168 pequenos negócios como microempreendedores individuais. Em 2018 foram 1.913; em 2019 o município abriu 1.951 novos MEIs; em 2020 foram cadastrados 2.296; e apenas de janeiro a julho deste ano de 2021 foram abertos 1.818. “Temos perspectiva de alcançarmos até 3.000 novos MEIs até o final deste ano, um recorde bastante expressivo”, explica Ricardo Pugliese, titular da Secretaria de Indústria e Comércio.

O setor de serviços é, disparado, o responsável pela maioria dos novos pequenos negócios constituídos em Marabá. Foram 997 (55%) dos MEIs que debutaram em 2021, contra 714 (39%) do segundo colocado, que é o comércio. O terceiro lugar fica para o setor de fabricação, com 107 (6%) novos microempreendedores. “Só na atividade alimentícia foram abertos 174 MEIs este ano, ressalta Pugliese.

Constituição de MEI's por mês em Marabá

(janeiro a julho 2021)

Serviço - 997
0%
Fabricação - 107
0%
Comércio - 714
0%

Quantidade total = 1.818

Edna Oliveira, gerente adjunta do Sebrae em Marabá, revela que durante a pandemia, embora o escritório local tenha ficado fechado, o atendimento online foi estabelecido para garantir suporte técnico aos pequenos e microempreendedores individuais deste e de outros municípios da região. 

“Tivemos um aumento de 9,86% de efetivação de MEIs instalados na cidade. Segundo dados da Receita Federal, antes da pandemia tínhamos mais de 8 mil microempreendedores e, atualmente, contabilizamos mais de 10 mil”, comemora, reconhecendo que o crescimento é expressivo em nível nacional, estadual, mas que em Marabá os números são maiores ainda.

Edna ressalta que o Pix facilitou a vida financeira de muitas empresas, fazendo com que as transações financeiras ocorram de forma mais rápida. “Os empreendedores conseguem alavancar as vendas colocando, às vezes, um único adesivo informando uma chave Pix ou QR Code. Eles têm a certeza que os clientes em potencial até saem de casa sem o cartão, mas quase nunca sem o celular. Por meio dele, podem efetivar um bom negócio com praticidade e segurança. A gente sempre orienta para que o empreendedor faça conferência na hora do pagamento, para se assegure que houve, de fato a transferência. Além disso, ao manter o diálogo com o cliente, está ampliando o relacionamento com ele”, pontua.

PALESTRAS CONTINUAM

A gerente adjunta do Sebrae em Marabá explica que, em função da pandemia, as palestras presenciais foram suspensas, mas elas continuam sendo realizadas no ambiente virtual, por meio de plataformas próprias do Sebrae. 

Temos site e aplicativo para que os empreendedores tenham acesso às palestras, podcasts, capacitações, além de cursos oferecidos dentro da plataforma do Sebrae Pará por meio do Whatsapp. Tudo isso gratuitamente”.

Edna Oliveira

Por fim, Edna Oliveira salienta que o Sebrae faz orientações permanentes para que as empresas cuidem de sua gestão financeira. No caso do Pix, os gestores precisam seguir os passos de segurança: ter chave cadastrada, conferir o pagamento, porque, às vezes, o valor transferido acaba sendo menor que o da compra. 

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Publicado em 29 de Agosto de 2021.

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