A equipe de Reportagem do CORREIO DE CARAJÁS conversou com mulheres com mais de 60 para descobrir o que transformou suas rotinas e visões sobre si mesmas frente ao tempo.

A ideia da mulher após os 60 anos, 70 anos, dedicada exclusivamente a cuidar dos netos e de outros parentes caiu por terra. Após a Segunda Guerra, a atuação do público feminino no mercado de trabalho passou a ser crescente, os movimentos feministas ganharam força e a luta por mais liberdade sexual não se cessa.

Parte das mulheres – parte pois infelizmente muitas delas seguem em condições socioeconômicas limitantes, a exemplo do que se vê no Brasil – passou a ter mais acesso à saúde e à educação, consequentemente ganhando mais independência para seguir em frente na busca por respeito e dignidade em qualquer fase da vida.

No projeto “E.L.A.S.- O envelhecer sob outra ótica”, conversamos com quatro mulheres – que nortearam a discussão sobre o que é hoje uma mulher na maturidade.

As jornalistas Ana Mangas e Luciana Marschall, com curadoria de Ulisses Pompeu, revelam sentimentos, percepções de vida e o próprio caminhar de quatro senhoras que têm liberdade para envelhecer.

Depois do amadurecimento precoce, Maria de Jesus chega aos 62 anos tendo se encontrado enquanto mulher apaixonada pela vida, pela família e pelo trabalho

Maria de Jesus Brito da Costa alcançou os 62 anos de idade levando a sério o ditado “trabalhe com o que você ama e nunca mais precisará trabalhar na vida”. Ela vive em uma chácara (um paraíso) no Núcleo São Félix, em Marabá, onde passa o tempo plantando, colhendo e tratando de flores tropicais. A paixão é dividida com outra, a da pescaria, que também pode ser vivida na propriedade, onde mantém criatório de peixes.

Quem a vê garantindo renda enquanto aproveita a vida que pediu a Deus – e ganhou – não imagina as dificuldades enfrentadas na infância, adolescência e início da vida adulta, fase nada fácil para quem foi mãe pela primeira vez aos 20 anos.

Maria de Jesus nasceu em Tocantinópolis, atualmente Estado do Tocantins, e desde cedo trabalhou com os pais e os quatro irmãos plantando e colhendo milho, arroz e feijão. Do contato com a natureza nasceu a habilidade para a terra e o gosto pelas plantas. “É o tipo de atividade que me completa, que eu gosto de fazer”.

Aventureira, aos 19 anos se jogou no mundo e foi parar em Brasília, onde pretendia morar com amigas. Os planos foram desfeitos e, de lá, mudou-se para Uberlândia, em Minas Gerais. Casou-se e engravidou duas vezes. A relação durou seis anos, mas não deu certo, tendo ficado marcado como um período de muita dificuldade.

Desejando mudar aquela realidade, Maria decidiu retornar para casa, mas esta havia mudado de lugar. Agora a família dela vivia em Marabá, onde ela também veio parar. “A gente volta para os pais quando dá errado. Eles me ajudaram muito e eu os ajudei”, relembra.

Havia um vizinho que frequentava a casa da família e era amigo dos irmãos de Maria. Um dia percebeu-se encantada por aquele homem e o sentimento se revelou recíproco. Foi o bastante para os dois decidirem ficar juntos. “Era sofrido que nem eu”, ri, contando que na época ele era desempregado.

O vizinho arranjou emprego em Serra Pelada, depois foi aprovado em um concurso dos Correios e um pouco melhor alocado decidiu pedir a mão da vizinha em casamento, que ocorreu há 34 anos.

O marido registrou os filhos do primeiro casamento de Maria e um ano depois ela estava novamente grávida. Posteriormente, ainda teve mais dois bebês, tornando-se mãe de um homem e quatro mulheres. “Eu tive muita sorte porque ele é o pai dos meus filhos. Ele criou meus dois primeiros igualzinho às outras filhas, matriculou na mesma escola e o melhor amigo dele é o meu filho”, diz, emocionada e com lágrimas nos olhos.

Os filhos, considerados o maior presente dela, só dão orgulho. O único homem é gerente de equipe em uma empresa elétrica e as filhas se formaram em Direito, Medicina, Engenharia e Gestão. Uma delas também está estudando Enfermagem. Eles proporcionaram que Maria fosse avó e, agora, bisavó. A segunda geração de netos, inclusive, é o xodó da florista.

“Bisavó é ainda mais coruja que avó. Essa bisnetinha veio meio assim… o menino teve um namoro com a moça e ela engravidou, no início eu fiquei zangada, disse que não queria nem ver, mas quando nasceu, quando vi a menina, me apaixonei”, revela.

Maria passou parte da vida adulta envolta na criação dos filhos. Depois que eles estavam encaminhados, o casal comprou a propriedade onde vive atualmente e ela passou a se dedicar a uma horta. A produção era vendida em atacado, levada até os revendedores, principalmente feirantes.

A operação dava trabalho e ela foi cansando dessa rotina exaustiva. Em uma viagem a Palmas conheceu as flores tropicais e voltou para casa com rizomas na mala. Em dois ou três anos as plantas estavam florescendo e Maria começou a montar arranjos. Parte deles era entregue à proprietária do maior supermercado da cidade, para embelezar o local. As flores, entretanto, chamaram a atenção e começaram a aparecer os primeiros clientes. “Eu comecei a vender e tá aí essa paixão, já tem quase 10 anos que eu trabalho com flores”.

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Desta vez, a rotina não é um problema e considerada o contrário de estressante. “Para mim é uma terapia. Eu não gosto de ir pra rua, eu faço os arranjos e eles levam pra entregar. Gosto de ficar sempre aqui na chácara”, diz, acrescentando que os serviços domésticos também não a interessam, o bom pra ela é estar em contato com a natureza.

O negócio ganhou o nome de “Maraflor” e em breve será expandido com a abertura de uma loja. Maria garante, entretanto, que as filhas serão responsáveis por este segmento. A renda do casal é proveniente da aposentadoria do marido, da venda de plantas e do aluguel da chácara para eventos, além de ajuda dos filhos.

A florista que ama um chapéu de palha diz ter ficado assustada quando completou 60 anos, garantindo que nem de longe essa é a idade que sente fisicamente. Uma das atividades preferidas dela, inclusive, é entrar na canoa e remar para poder alcançar os melhores peixes. As companheiras de pescaria são mais jovens, têm entre 25 e 30 anos, mas Maria não perde em nada para elas.

Diz que aos 62 continua com o espírito aventureiro e dispensa, por exemplo, convites para ir à cidade grande, mas topa qualquer viagem para uma chapada, uma ilha ou um lugar rústico. A família e o trabalho são o combustível dela e o único arrependimento foi não ter prosseguido com os estudos.

“Eu diria para a Maria de 20 anos de idade para amar primeiramente os pais, obedecer e estudar. O estudo é a coisa mais importante na vida da gente. Eu sou morta de arrependida porque não estudei, tenho apenas o ensino médio, mas nunca aceitei isso dos meus filhos. Estudo foi a única coisa que eu e meu marido conseguimos dar”, afirma.

Lutando diariamente para viver e sobreviver… as dificuldades fazem parte da história de Maria José. Mulher preta, mãe, esposa, avó, atleta e empreendedora, ela trabalha desde os 10 anos de idade e, com muito orgulho conseguiu vencer, não só na vida, mas nas pistas de corrida. Determinada, sua força pode ser ouvida em suas histórias ou vista através de suas 58 medalhas de atletismo.

Maria José Costa Tavares, 64 anos.

Maranhense, nascida no município de Santa Inês, Maria José Costa Tavares, 64 anos, não teve uma vida fácil. Muito pelo contrário, todos os dias, desde que nasceu, travava uma luta diária pela sobrevivência.

Até os 6 anos de idade, morou na zona rural do município, quando então, sua mãe a levou para viver com um padrinho, para que pudesse estudar. Um ano depois, sua mãe faleceu por uma picada de cobra e Maria, ficou de vez residindo com o tutor, que por sinal, criava mais 8 crianças, que também não eram seus filhos biológicos.

Sofrendo desde então, Maria começou a trabalhar muito nova. “Com 10 anos eu já vendia frutas e verduras na feira para ajudar no sustento de casa. Aí comecei a estudar no período noturno, pois precisava trabalhar para sobreviver”, relembra emocionada, afirmando que o trabalho era a prioridade, porém concluir os estudos sempre foi um sonho e ela não desistiu.

Indo para a escola de alfabetização à noite, concentrando-se com a luz de uma lamparina, ela afirma que na sala de aula, só havia pessoas adultas que tinham o mesmo desejo que ela: estudar. Os olhos brilham ao lembrar que seu sonho nessa fase, era vestir um uniforme igual das meninas de sua idade que frequentavam os colégios durante o dia: blusinha branca e saia de pregas.

Aos 14 anos, ela já possuía seu próprio espaço na feira e trabalhava dia e noite como camelô. Vendia de tudo: frutas, verduras, perfumes da Avon e o que mais aparecesse.

Mesmo diante de tanta dificuldade, a adolescente pobre de Santa Inês arranjou um tempinho pra se divertir e namorar. O primeiro boy foi escondido, se encontravam à noite quando ela ia para a escola, afinal, era muito vigiada pelo padrinho rígido e severo. O namoro, no entanto, não demorou muito. E os estudos foram somente até completar o ensino fundamental.

Logo depois, apareceu um certo Valdecy Ramos Tavares e um namoro oficial iniciou, porém, em Tucuruí (PA), e durante quatro anos o relacionamento seguiu por cartas, que demoravam até dois meses para chegar. Até que Valdecy foi a Santa Inês para que o casamento finalmente acontecesse.

Chegada em Marabá

Em 1979 eles casaram-se de forma simples e sem festa, somente assinando os papéis no cartório. Dias depois, ela o marido chegavam a Marabá. “Meu sonho era morar no Pará, eu só ouvia coisas boas daqui, achava que era o lugar ideal para viver e trabalhar”.

Contudo, o marido não queria que ela arrumasse emprego, por já ter trabalhado muito na infância e adolescência, mas as dificuldades logo começaram a aparecer. Em 1980, engravidou do primeiro filho. Neste ano, Marabá teve uma das piores enchentes da história, chegando a água nos fundos da sua casa.

“Nós ganhamos um terreno da antiga Sudam na Folha 15, que é onde eu moro até hoje. À época, construímos uma casa de madeira e barro e coberta de palha. Era toda torta. As pessoas achavam que ela ira cair. Mas ainda vivemos um bom tempo daquele jeito”.

Dois anos depois, veio o segundo filho e, em 1983, o terceiro rebento. Foi aí que as necessidades começaram a surgir de forma mais severa, quando ela percebeu que sua filha menor ficou desnutrida. “Naquela época a gente não tinha esses cuidados e as informações de proteção para evitar gravidez como se tem hoje. Em 1984, nasceu meu quarto filho”, rememora, afirmando que foi aí que decidiu que precisava trabalhar para alimentá-los e ajudar o marido nas despesas de casa.

Dona Neném começou a busca um emprego. Conheceu a Associação da Mulher de Marabá e, Francisca Matos, presidente da entidade na época, lhe deu um trabalho – esse que era do Estado e, no qual, ela trabalhou por 32 anos e conseguiu se aposentar.

 

Somente com o ensino fundamental o desejo de voltar a estudar voltou à tona. Decidiu que era hora de retomar os estudos, já que sua maior vontade era estudar magistério. Maria José trabalhava o dia todo na associação e, à noite, seguia para o Plínio Pinheiro, onde muitas vezes voltava a pé para sua casa, pois ônibus era difícil naquela época.

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Ela relembra que todo seu esforço de trabalhar e estudar era para que seus filhos não sofressem como ela, que não precisassem trabalhar durante a infância e juventude, somente estudar. “Nunca tive vergonha da minha história e de tudo o que já passei na vida. E eu consegui vencer. Meus filhos são todos formados e isso é a minha maior alegria”.

Com os filhos adultos e cada um com a sua família, vieram os netos. Ao todo são 10 pequenos que enchem o coração dessa vovó de amor. “Ser avó é muito bom, porque a gente não cria os netos né? A gente fica só com a parte boa”.

Devido a um problema de saúde, Maria José precisou se afastar das salas de aula e começou a trabalhar somente um período, à noite, e seus dias ficaram livres. “Eu não queria passar o dia inteiro em casa, então conheci uma pessoa que me levou para Goiânia (GO) e lá comprei umas roupas fiado. Passei a vender, de porta em porta, aqui em Marabá. “Saía de bicicleta oferecendo minhas roupas, depois comecei a vender em casa mesmo e, há 15 anos, eu abri uma loja. É pequena, mas é minha. Eu tenho muito orgulho de ter conseguido isso aqui”.

HORA DE MALHAR

Nesse meio termo, um problema de coluna surgiu e ela precisou começar a fazer atividades físicas. Com o dinheiro curto, encontrou um amigo de longa data, Nilvando Ferraz, dono de uma academia na cidade, que lhe ofereceu por um preço bem acessível, as aulas de hidroginástica, que fez durante anos.

“Depois eu me interessei por outras atividades e conheci o Gilberto Ferreira, que me convidou a participar do grupo de corrida dele. “Eu falei que não dava conta, mas ele pediu pra eu fazer uma aula experimental. E não é que gostei?”, relata animada.

Questionada sobre o carinhoso apelido que possui e que lhe faz ser lembrada por muita gente, Dona Neném explica o motivo. “Eu tenho o Gilberto como filho e o chamo de “meu neném”, e ele começou a me chamar de neném, como uma troca. Acabou que todo mundo começou a me chamar de “Dona Neném”, e assim eu sou conhecida, tanto da academia como no grupo de corrida”.

E a corrida deu um novo sentido a sua vida, melhorando sua vitalidade, a autoestima e o humor. “Eu comecei a receber tanto elogio. Às vezes, nem corro muito bem, mas ganho muitos elogios. Tenho 58 medalhas, entre elas de primeiro lugar e de participação. As pessoas dizem que se inspiram em mim”, conta feliz da vida, nossa atleta que já correu até 15 km.

Questionada sobre os 64 anos, ela afirma que na cabeça em sua cabeça não existe esse número. “Não tenho essa idade de jeito nenhum. Me sinto jovem demais. Uns 40 anos, com toda força e resistência”.

E essa jovialidade toda está inclusive no namoro.

Com os filhos crescidos, a casa ficou só pra ela e o marido, que namoram bastante. “Às vezes, eu até reclamo, porque é um pouco lento, quer deitar no sofá e logo dorme. Mas aí eu já fico logo chamando ele e não o deixo dormir”.

Forjada na caatinga, Maria do Socorro tem alma jovem e não deixa de laborar aos 60 anos

Socorro Cavalcante (1)
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Uma caminhada de três quilômetros separava a casa da pequena Maria do Socorro Cavalcante do ponto onde ela coletava a água que abastecia a família composta pelos pais, o agricultor Francisco e a costureira Terezinha, além dos 14 filhos, no interior do município de Jaguaretama, na caatinga do Ceará. A criança, com menos de 10 anos, acordava cedo para executar a atividade escolhida por ela. Era isso ou catar feijão na roça.

Hoje, cinco décadas depois e vivendo em Marabá, distante mais de 1.500 quilômetros de onde nasceu, Maria do Socorro não precisa mais encarar o sol e a caminhada obrigatória, mas nem por isso deixou de lado o aprendizado, transmitido pelos pais, sobre a importância do trabalho. Com 60 anos de idade, ela ocupa há 21 a diretoria da Associação de Pais e Amigos dos Excecionais de Sonora (Apae), desde o início do desenvolvimento deste trabalho no município. 

“São 60 anos bem vividos, bem trabalhados, com muitas conquistas e muitos desafios. Eu acho que a melhor parte de estar com essa idade é saber que consegui viver intensamente cada momento da vida, seja ele fácil ou seja ele difícil”, observa.

Maria do Socorro cresceu dividindo o tempo entre o trabalho, as brincadeiras e os estudos. “Hoje eu não sinto saudade daquele lugar, mas ele me deixou mais forte. Foi onde Deus permitiu que eu nascesse para que eu pudesse analisar a minha vida e valorizar o que sou hoje”, sustenta, recordando que o interior do Ceará há mais de 50 anos era um local de difícil sobrevivência. “Logo na minha adolescência eu tinha um objetivo, eu falava pros meus pais que na primeira oportunidade eu iria embora do sertão nordestino”.

Duas irmãs mais velhas de Maria do Socorro já haviam deixado o estado e quando retornaram para uma visita, ela tratou de pegar carona com destino ao Norte, onde se instalou em Concórdia do Pará. Depois de um ano estudando na localidade chegou à conclusão de que lá não poderia prosseguir com os estudos e mudou-se novamente, desta vez para Tucuruí, cidade ainda pequena que assistia ao início da construção da barragem da usina hidrelétrica lá instalada.

“O objetivo era estudar e ajudar meus pais. Quando saí de casa fiz uma promessa, um juramento, que tudo que eu ganhasse mensalmente eles teriam uma porcentagem pra ajudar a criar minhas irmãs. E assim, Deus me permitiu”, orgulha-se.

Em Tucuruí casou-se a primeira vez, com o Dr. José Manoel, e de lá mudou-se para Rondon do Pará, última parada antes de instalar-se definitivamente em Marabá, há 31 anos. Socorro tornou-se mãe de Gustavo e Bruno, hoje formados engenheiros civis. “Sou muito feliz pela família que construí, não deu certo (o casamento), porém somos muito amigos”, conta, acrescentando ter casado novamente com Zenon Martins Gonçalves, com quem vive há 18 anos.

Do primeiro casamento Maria carregou a experiência para o segundo. Afirma ter fortalecido o amor próprio, a segurança e a independência. “Você não vai permitir determinadas coisas porque já vivenciou um casamento que não deu certo e sabe os pontos positivos e os negativos”, afirma, acrescentando que o segundo marido já convive com uma Maria do Socorro “mais difícil”, dona do próprio nariz (risos).

Com os filhos, garante ter sido severa devido à preocupada com a criação, muitas vezes uma tarefa solitária após o pai dos meninos deixar cidade, apesar de fornecer suporte aos dois. “Para a mãe, os filhos não crescem, você só muda a forma de dialogar e de direcionar na vida. A mãe quer que eles cresçam e sejam independentes”, destaca, informando manter ótimo relacionamento com ambos. “Somos muito amigos, eles são tudo na minha vida”.

Passada a tempestade, agora é tempo da bonança curtindo os netos George, que tem um ano e meio, e Manoel, que está para chegar.  “Aquele período em que não consegui brincar com os meus filhos, porque eu tinha que trabalhar e educar, hoje vou curtir. Avó é para brincar e amar”, acredita.

Mesmo tendo alcançado a terceira idade, Maria do Socorro garante sentir-se como se tivesse 18 anos. “Me sinto uma garota cheia de esperança, minha idade não influencia nada, ao contrário, soma pela experiência que eu tenho. Cada ano que passa é uma vitória e algo muito especial”.

Sobre a religião, afirma utilizar a doutrina com muita segurança e respeito, tendo sido catequizada para ser uma boa cristã. Dessa relação, também vem o amor aos esportes, segundo a máxima de tratar o corpo como um templo. A pandemia, entretanto, a afastou da academia. “Confesso que estou morrendo saudade, de 5h30 da manhã estar lá, malhando”. Por enquanto, as caminhadas satisfazem em parte o desejo de exercitar-se.

No trabalho, assunto favorito da católica apostólica, depois de Deus e da família, Maria do Socorro diz ter se encontrado ajudando a quem precisa. “A APAE significa uns 70% da minha vida porque foi onde criei meus filhos. No momento mais difícil da minha vida me ofereceram a entidade e tive muito medo, mas também tinha meu diretor espiritual, o Dom José Vieira, que me convidou”, rememora, lembrando ter sido convidada após participar da fundação do Lar São Vicente de Paulo.

Para Maria do Socorro, ao contrário de grande parte das pessoas, trabalhar é prazeroso e as segundas-feiras são especiais no calendário dela. “Tem uma luz, um brilho diferente, porque é o dia que acordo e penso ‘hoje eu vou executar minhas atividades, o meu sustento de cada dia’”, diz, acrescentando que na APAE trabalha com anjos. “São pessoas com um abraço e um sorriso verdadeiro e um carinho que ninguém mais tem”.

Por fim, para a Socorro de 20 anos, caso pudesse, a mulher de 60 anos deixaria um único conselho: “estude mais, trabalhe mais e siga em frente com seus objetivos, porque você chega longe”. 

“Me sinto uma garota cheia de esperança, minha idade não influencia nada, ao contrário, soma pela experiência que eu tenho. Cada ano que passa é uma vitória e algo muito especial”.

A responsabilidade imposta pela vida desde cedo, fez de Terezinha uma mulher independente e decidida. Há quase 30 anos exercendo a profissão de enfermeira, ela é daquelas que mostram sua força através da delicadeza e do cuidado com o próximo. Fã do Alok, mãe zelosa e esposa parceira, ela inspira outras mulheres.

Terezinha Carneiro, 60 anos

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De acordo com o Estatuto do Idoso, pessoas que completam 60 anos já são consideradas idosas. Porém, neste Especial do Dia da Mulher, não espere encontrar uma imagem de uma típica vovó das antigas. Nossas jovens-senhoras estão dando um show de vitalidade, independência e beleza.

Terezinha Carneiro, 60 anos, é enfermeira há quase 30 anos. Mulher forte, decidida e com a voz doce, dá vontade de passar o dia todo papeando. Nascida e criada em Marabá, Terezinha é a caçula de sete irmãos e morou na cidade natal até terminar o segundo grau – o atual ensino médio – quando então, decidiu ir morar em Belém para estudar e fazer o vestibular para enfermagem.

O encanto pela profissional começou na infância com as brincadeiras de médico junto com os irmãos, que com o passar dos anos, esse cuidado com o próximo foi se tornando algo tão corriqueiro que percebeu que era realmente isso que queria fazer: cuidar das pessoas. E convenhamos, dona Terezinha sabe fazer isso como ninguém.

Trabalho

Após cincos estudando na capital, ela retornou à Marabá e, em 1993, seguiu para São João do Araguaia (PA) onde atuou até 1996, quando passou no concurso da Prefeitura Municipal. Voltou para sua cidade assumindo o cargo na Unidade Básica de Saúde Demósthenes Ayres Azevedo, na Velha Marabá, onde trabalha há 25 anos. Seus pacientes, aliás, recebem além dos cuidados de saúde, muito amor, chamando-os carinhosamente de filhos e netos. “Eu cuidei de muitas mães grávidas, depois cuidei das filhas delas igualmente grávidas, que agora já estão tendo seus bebês. Eu conheço todos do bairro, tenho um carinho imenso, sou vovó de coração de muitas crianças”.

Funcionária pública municipal e estadual, ela concilia a jornada dupla com um sorriso no rosto, iniciando seu dia às 7h da manhã no posto de saúde, onde atende crianças de 0 a 5 anos, faz o acompanhamento de gestantes, além de atender pessoas que sofrem com hipertensão e diabetes. No período da tarde, segue para a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).

A profissão de enfermeira é algo tão forte em sua vida, que acabou passando – disse que sem querer – a paixão para a filha, Ádila, de 22 anos. Sem ter com quem deixar a menina, quando criança, para poder ir trabalhar, dona Terezinha a levava para o posto de saúde e a deixava quietinha, enquanto fazia atendimentos. “Minha filha amava brincar com o estetoscópio e falar que ia atender as pessoas. Hoje, ela está na faculdade cursando Enfermagem, e eu sou uma mamãe muito orgulhosa”, emociona-se.

Família

Por falar em orgulho, Terezinha se emociona e os olhos brilham ao tocar no nome dos filhos. Além da estudante, ela também é mãe de Ian, que trabalha como repositor de mercadorias, em uma rede de supermercados. Com o casal de filhos já adultos, ela ainda se considera uma mãe muito cuidadosa. Sempre procurou conversar e ter uma relação de amizade com eles, que desde pequenos sabiam que tinham nos braços dela, o conforto e a segurança de uma mãe, a palavra e a confiança de uma amiga.

Em sua primeira gravidez, Terezinha perdeu o bebê aos 7 meses de gestação e, nem por isso, desistiu de tentar engravidar novamente. “Eu não fiquei traumatizada, queria ter meus filhos. Anos depois eu engravidei e as duas foram de risco”, afirma, contando que o barrigão lhe dava a sensação de poder. “Conversar com o neném na barriga e ficar passando a mão e sentindo a criança mexer é algo indescritível”.

Mesmo com muitas dificuldades nas gestações, que eram de risco, ela afirma que foi a fase mais tranquila de sua vida e trabalhou até a hora de parir. A experiência como mãe de bebês prematuros, aliás, auxilia muito na profissão, contribuindo nos seus atendimentos com as grávidas que fazem acompanhamento de pré-natal no posto de saúde.

Casada há 28 anos, ela afirma que a relação é forte e enraizada e, garante, que a maturidade fez com que o casamento com o marido só melhorasse com o passar do tempo. “Como todo relacionamento, os problemas existiram, porém, nunca foram motivo para separação, muito pelo contrário, serviram para fortalecer e ter a certeza que estarmos juntos era a melhor escolha”.

Ela conta que para a época, casou-se “coroa”, aos 32 anos de idade. Porém, não se arrepende em nada, já que antes do casamento, aproveitou sua solteirice, namorando muito. Mas ressalta, o namoro daquela época era bem diferente dos de hoje em dia.

“Eu era muito sapeca”, relembra aos risos. Quando foi morar em Belém para estudar, conta que todo final de semana saía para dançar e passear, sem contar as idas às praias: Algodoal era o destino preferido da jovem, que recorda com carinho dos momentos vividos. “Eu sempre falo para os meus filhos aproveitarem a juventude, enquanto estão solteiros e não têm filhos, porque quando o casamento vem e os filhos chegam, os passeios se tornam outros”.

Fã do Alok?

Atualmente, sua maior diversão é assistir filme. Cinéfila assumida, ela adora reunir a família no sofá, com um balde de pipoca e um guaraná. Às vezes, passa o dia em frente à televisão. Mas não se engane, a calmaria do cinema acaba quando começa a tocar dance. Fã do DJ Alok, ela adora ouvir e dançar música pop, que já não faz o tipo do maridão, que gosta do sertanejo sofrido.

“Ele vai tomar a cervejinha dele e ouve aquelas músicas sofridas. Quando ele começa eu saio de perto, só música triste. Eu hein… Gosto é de ouvir dance pra dançar”.

Outro lugar que tem um espaço cativo nos momentos de descanso e lazer da família é uma chácara em São João do Araguaia, que pertence à sua sogra. O local é o ponto de encontro para as festas ou para o descanso.

Sexo pleno

Engana-se o jovem que pensa que aos 60 anos o sexo deixa de fazer parte da vida de um casal idoso. Dona Terezinha abriu um sorriso ao falar do assunto. Sem timidez nenhuma, ela afirma que o tempo e a experiência fizeram com que a relação sexual do casal só melhorasse.

“Passei pela menopausa de forma natural, não foi preciso fazer reposição hormonal, mesmo durante os seis meses que senti os sintomas de forma mais intensa. E meu marido tem parcela de contribuição nisso, ele é um parceiro cuidadoso e sempre me estimulou muito sexualmente”.

Gratidão pelos anos

Fazendo uma análise e olhando para o passado com carinho e gratidão, Terezinha afirma que faria tudo de novo, exatamente igual. Responsável, ela conciliou o trabalho e os estudos para poder se formar. Com muita dificuldade, cansaço, noites em claros, ela nunca pensou em desistir. Olhar para o passado e relembrar o dia que recebeu o canudo da graduação de conclusão do curso de enfermagem faz tudo ter valido a pena. “Foi uma vitória”, como ela mesma resume.

Os planos para os próximos anos? “Quero aposentar somente do cargo do Estado. O trabalho no posto de saúde do município vai seguir pelos próximos três anos. E depois só vou pensar em viajar, eu e meu marido”, antecipa.

 

Descendente de árabe, com veia maranhense e coração marabaense… Gina aprendeu cedo que o amor é o combustível da vida. Desde muito nova soube valorizar o trabalho, que fez dela uma mulher capaz de superar qualquer obstáculo. As filhas e as netas emocionam Gina, que sabe que elas são a continuação de sua história.

Motorista há mais de 25 anos, aprendeu que o caminho nem sempre é fácil e, que muitas vezes, é preciso parar para que o outro siga.

Neta de um árabe e de uma maranhense. Assim começa a história de Gina Medleg de Sousa, que está prestes a completar 60 anos. Dona Jamilla, mãe de Gina, era filha única e, aos 7 anos de idade perdeu a mãe, sendo então, criada somente pelo pai. Tendo que trabalhar desde nova, Jamilla ajudava o pai que trabalhava vendendo tecidos, linhas e botões que vinham do Maranhão.

“Minha mãe começou a trabalhar muito nova e ensinou isso para todas nós. Somos 7 filhas, sendo apenas duas do mesmo pai. Mamãe foi costureira, dona de casa, criou muita galinha e pato para vender os ovos. Ela sempre batalhou muito para nos criar”, relembra a filha.

Com o passar do tempo, Gina conta que os pais de algumas irmãs a levaram para morar em outros lugares, para que elas pudessem estudar. Ficando em Marabá, apenas quatro irmãs, que continuaram morando com dona Jamilla, que casou-se anos depois com um marabaense.

“Com 16 anos eu fui morar com uma irmã minha em Brasília. Moramos lá durante 5 anos, sempre trabalhando e estudando. Na verdade eu nunca gostei muito de estudar, eu queria mesmo era trabalhar”, relata, com muita gratidão no coração, afirmando que sua irmã foi uma segunda mãe para ela.

Após um período residindo em Brasília, ela e a irmã seguiram para São Paulo, onde tudo se transformou na vida da jovem Gina Medleg. “Eu estava um belo dia em um boteco tomando uma cervejinha com uma amiga, quando um homem apareceu na minha frente. Ele chegou e eu falei ‘é o amor da minha vida’. A pessoa que estava comigo disse que eu tava ficando louca, que tava doente, que isso não podia acontecer”.

Gina sabia o que estava falando e sentindo. Eles se conheceram e, juntos, viveram uma história de amor digna de filme. “Foi amor à primeira vista”, ela define, relembrando que ele foi seu primeiro relacionamento com alguém do sexo masculino. “Foi a primeira vez que beijei um homem, nunca havia deixado ninguém me tocar. Eu realmente me apaixonei por ele”.

Em 1981, Gina retornou à Marabá com o companheiro e foi morar na casa da mãe, junto com seu padastro, que tinham um restaurante muito conhecido na Velha Marabá, ‘O Calmon’. “Trabalhei com eles como garçonete. Era um restaurante maravilhoso, oferecíamos 120 pratos, do camarão ao lombo de porco. Tinha de tudo”.

Nesse período de muito trabalho no restaurante, Gina engravidou e, quando sua filha completou dois anos de idade, o casamento chegou ao fim de forma tranquila, tanto que o sentimento hoje é de gratidão. “Vejo esse relacionamento como um presente. Nunca imaginei me envolver com um homem, mas foi algo mais forte que eu. Acho que foi somente pra eu ter minha filha mesmo”, emociona-se.

lTrabalho nunca foi problema para esta mulher forte e determinada. Após deixar o restaurante da família, começou a vender pastéis. Profissão que durou aproximadamente 14 anos. Diz que nunca teve preguiça e precisava sustentar a filha. “Eu mesma fazia as massas, não tinha esse negócio de comprar a massa pronta como tem hoje em dia. Também produzia os recheios de carne moída e de frango. Seguia empurrando o carrinho pra frente da Caixa Econômica, na Praça Duque de Caxias. E ali começou a minha trajetória de trabalho. Foi quando comecei a trabalhar sozinha”.

Nesse período, a empreendedora atrelou a venda de pastéis com espetinhos e batata frita e, assim, sustentou filha Jamille – que hoje tem 37 anos – com muita perseverança. O exemplo de trabalho foi passado de geração em geração e Gina orgulha-se de ter conseguido dar uma vida tranquila para a filha, que estudou e se formou, com o suor do seu trabalho.

O amor pela cozinha continua e até hoje Gina é uma cozinheira de mão cheia. Sabe aquele arroz, feijão e bife? Pois é, a família ama comer a comidinha dela. Porém, na década de 1990, a cozinha ficou em segundo plano e deu lugar a outro amor: o trânsito. Sempre gostando de trabalhos pesados, Gina deixou os fogões para pilotar uma motocicleta, se tornando a primeira mototaxista mulher de Marabá.

“Eu amava. O trânsito naquela época era muito mais tranquilo. Eu era muito cuidadosa com meus passageiros, todos que subiam na garupa colocavam uma touca, por causa da higiene com o capacete, né?!”, justifica.

Anos depois, largou a moto e foi para um Fiat uno. Qual era o trabalho dessa vez? Motorista de transporte escolar. Apaixonada por crianças e, com uma filha pequena, na qual levava todos os dias para a escola, ela decidiu unir o trabalho com aquilo que já fazia diariamente. E é no ritmo dos alunos que sua trajetória dura até hoje.

“Comprei um Fiat Uno e comecei a fazer o transporte de crianças para a escola. Ia buscar e deixar. As pessoas me perguntavam se era bom. Eu sempre gostei de dirigir e sempre gostei de criança. Amo meu trabalho e quero continuar fazendo isso até eu aguentar. É só o que eu peço a Deus, que ele continue me dando forças”.

Movida por amores, Gina transborda o sentimento sem vergonha. Muito discreta em sua vida pessoal, ela afirma que sempre teve relacionamentos duradouros. “Eu sempre gostei de namorar, de estar junto. Tive relacionamentos longos e em todos eles, fui muito feliz”, conta emocionada, mesmo afirmando que o término do último relacionamento, ainda está cicatrizando.

Com a filha Jamille, a conversa sobre os relaciomamentos homoafetivos nunca aconteceu de forma direta, porém, a menina na época, nunca questionou a sexulidade da mãe. “Eu nunca fiquei de beijos e abraços na frente da minha filha, ou de qualquer outra pessoa. O preconceito existe em todo lugar, mas eu sempre me dei o respeito, por isso as pessoas têm tanto carinho e admiração por mim”.

Em um dos longos relacionamentos, o amor foi tanto que transbordou e, veio então, Ana Júlia. A menina que hoje tem 13 anos, é fruto da adoção do casal, que mesmo separadas, continuam cuidando e educando a jovem de forma harmônica e amorosa. “Eu vou buscar a Ana Júlia na casa dela, que fica aqui comigo algum tempo, e depois volta para a casa da outra mãe. Ela adora ter duas mães”.

O último relacionamento acabou há cerca de um ano e dele escorrem lágrimas quando é indagada. Mas diz que está aberta a novos amores.

Segurando a emoção ao falar das filhas e das netas, Gina mostrou à nossa equipe de reportagem, que o amor sempre é o melhor caminho para se viver feliz. A lição desse encontro? Que as pessoas amem mais uns aos outros, sem distinção de cor, sexo, raça, religião. O amor é o inicio e o fim de tudo.

 

EXPEDIENTE:

Ana Mangas

Formada em Marketing, trabalha com comunicação há quase 10 anos e descobriu o poder da sua voz e da sua palavra. Após um relacionamento de 5 anos, a separação veio como uma fonte de força, empoderamento, beleza e independência. Aprendeu que a mulher pode ser livre e se sentiu inspirada com cada uma das entrevistadas do projeto “E.L.A.S”.

Luciana Marschall

Formada em Jornalismo há mais de 10 anos e eterna revoltada com as disparidades enfrentadas pelas mulheres por questões de gênero. Emociona-se facilmente escrevendo histórias como as relatadas neste trabalho.

Karol Bezerra

Karoline Bezerra da Silva é acadêmica do curso de Jornalismo na Unifesspa, em Rondon do Pará. Natural de Marabá, abraçou o projeto “O envelhecer sob nova ótica” para produção de vídeos e sentiu-se representada pela vozes femininas que ecoam neste trabalho.