Epidemia das bikes na pandemia

Por que o ciclismo cresceu tanto em Marabá durante a pandemia do novo coronavírus? Se você ficou de fora, saiba como e por que aderir à modalidade que não é modismo.

Você tem a sensação de que muita gente investiu no ciclismo durante a pandemia do novo coronavírus e de que há mais bicicletas nas ruas agora de Marabá? Saiba que não é mera impressão. É fato: só no último mês, as vendas de bikes aumentaram 118% no Brasil em comparação ao mesmo período do ano passado, segundo uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike).

Em Marabá, as mais de 40 lojas do segmento também comemoram o fato de terem atravessado a quarentena sem crise. Pelo contrário, o faturamento aumento mais de 70%, tanto na comercialização de bicicletas quanto na venda de acessórios.

De acordo com informações de lojistas, o aumento se deu especialmente porque a população procura por soluções para evitar as aglomerações do transporte público – seguindo, inclusive, recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). A bicicleta tem um valor mais acessível do que motocicletas e ainda contribui para a saúde e para o meio ambiente, já que não poluem. “As pessoas também estão procurando se exercitar de uma forma segura, com distanciamento”, explica Carlos Eduardo Gomes, membro de um dos (muitos) grupos de ciclismo de Marabá.

O estoque de muitas lojas acabou e os comerciantes não conseguem renovar o estoque porque os fornecedores não estavam preparados para esse evento. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a loja local da Centauro, no Pátio Shopping Marabá, que simplesmente viu zerar seu estoque de mountain bike e os acessórios foram pulverizados das prateleiras na semana em que o shopping reabriu.

Adriana Carvalho da Silva, dona da loja Braciclo, uma das mais populares no núcleo Cidade Nova, conta que o aumento foi expressivo e inesperado, mesmo quando todos os outros segmentos estavam em crise. Ela conta que mantinha em estoque, antes da quarentena, entre 100 a 150 bicicletas em sua loja, e quando muitos reclamavam, foram vendidas todas as bikes e todos os tipos de acessórios.

Mais do que comerciante do segmento, Adriana é amante do pedal e gosta de participar de trilhas. Ela participa de uma equipe de ciclismo com amigos e amigas. “À medida em que a gente foi praticando, as amizades foram sendo feitas e isso tem ajudado tanto na qualidade de vida quanto nas emoções”, diz ela.

Para Adriana, o ciclismo ajuda na mente, pois a partir daí todas as emoções são tratadas e fisicamente o corpo vai melhorando. “Se você, mulher, tem interesse em perder medidas, o caminho mais divertido é praticar ciclismo, afinal, não há ciclistas que não tenham um sorriso no rosto”, diz, contagiada.

Adriana Carvalho incentiva a mulherada a cair no pedal e sentir a diferença na balança
Boa parte dos grupos de ciclismos em Marabá gosta da aventura das trilhas no verão e inverno

O PROFESSOR, A FISIOTERAPEUTA
E O BIOMÉDICO

A vida de Jael Sanches mudou radicalmente durante a pandemia. Ele reside em Morada Nova e trabalha como professor de Biologia e Ciências em uma das aldeias do povo Gavião Parkatejê, na TI Mãe Maria, a 25 quilômetros de sua residência. Ele estava com sobrepeso e ficar só em casa era uma tentativa para aumentar mais ainda.

Em maio deste ano, no meio da quarentena, decidiu pedalar, influenciado por alguns amigos. Em um mês, já conseguia fazer um percurso entre 40 a 50 quilômetros e em 60 dias havia perdido 11 quilos. Junto com os amigos do pedal, ele cumpre um plano semanal dentro do perímetro urbano e aos finais de semana encara uma trilha em estradas de terra.

Mais do que uma atividade física, o ciclismo deve reformular até mesmo sua rotina para ir ao trabalho. Vai trocar seu veículo motorizado para ir à aldeia, todos os dias, de bike. “Esses 25 km já estou vendo como uma opção a mais para melhorar ainda mais minha qualidade de vida”.

Como o exemplo de Jael, há centenas de pessoas em Marabá que aderiram ao ciclismo como forma de melhorar a qualidade de vida e aumentar a imunidade neste período. É o caso de Patrícia Trovo Garcia, fisioterapeuta, que pratica essa modalidade há cinco anos, mas que estava parada. Parou e perdeu o hábito que havia construído.

Agora, na quarentena, retornou ao pedal. Primeira foi à academia, mas não se sentiu bem e segura, então lembrou-se de sua bicicleta. Fez um up grade, comprou os equipamentos de segurança necessários e, e com o estímulo de sua amiga Núbia Suriane, retornou neste mês de agosto a pedalar duas vezes durante a semana e aos domingos, além de ir nas trilhas quando aparecem.

O biomédico Robson Abade resolveu comprar sua bicicleta para ir ao trabalho e nem imaginava que isso o ajudaria a mudar o estilo de vida. Aos 34 anos, começou sua aventura esportista. Logo se viu gostando tanto, que passou a acompanhar os grupos de ciclistas que via, fez amizades e gosta de estar sempre com boas companhias. Robson pedala, em média, três vezes por semana e está sempre dizendo “sim” para quem o convida para um passeio pela cidade (mas de bike).

Jael Sanches: menos 11 quilos em dois meses só pedalando bicicleta
Patrícia Trovo, a fisioterapeuta, voltou à bike e não quer largar

LEGADO DOS VOVOZINHOS
DA SPEED

Eles não são muitos, mas representam o passado, o presente e estimulam o futuro do ciclismo em Marabá. Têm entre 50 a 60 anos de idade e todas as manhãs, de segunda a sexta-feira, começam o dia com um “short pedal”, um tiro curto de cerca de 23 quilômetros pelas ruas de Marabá.

É a “Turma do Tio Nelson”, que pedala junto há cerca de 35 anos e serve de referência de vitalidade e companheirismo para quem está começando na modalidade. Entre os mais “antigões” estão Oliveira, Baiano, Albino, João Vitor, Ernildo, Pimental e Onça-Preta.

Tio Nelson, na verdade, é Nelson Pereira dos Santos, 57 anos de idade, que chegou a Marabá em 1976, vindo de Brejo Grande do Araguaia. Aqui, no mesmo ano, iniciou uma parceria com o colega e amigo Barnabé, que durou até 2012, com uma oficina de bicicleta no Bairro Laranjeira.

Há oito anos ele montou sua própria oficina, no mesmo bairro, que ganhou o nome de “Bicicletaria do Tio Nelson”. O negócio cresceu e atualmente atende uma legião de clientes que ganhou fermento e aumenta a cada dia. Além de bicicletas, vendem peças e prestam serviço de conserto de qualidade, sendo este último um grande diferencial em relação aos concorrentes, na avaliação dos ciclistas mais exigentes.

Atualmente, Tio Nelson conta com sete funcionários em sua oficina, que vive limpa, sem graxa ou óleo no chão, mesmo com tanta gente trabalhando ao mesmo tempo.

Voltando ao grupo de bike, ele é um dos protagonistas e a velha guarda praticamente toda usa bicicleta speed (aquelas que correm mais na estrada pavimentada). Quem quiser testar para saber se manda bem nesta categoria, pode tentar acompanhar os “velhinhos” num tiro entre o estacionamento da Havan, dando um giro no Km 6, passando reto para a Velha Marabá até o Estádio Zinho Oliveira e terminando o circuito no mesmo lugar do início. Eles usam bicicletas que não custam menos de R$ 5 mil (algumas passam de R$ 10 mil) e andam sempre bem vestidos e com todos os equipamentos de segurança. São cerca de oito veteranos que estão desde a criação do grupo, sendo que o mais velho tem 62 anos.

A equipe deles, no passado, disputava campeonatos, indo inclusive a Belém para competições. Além do pedal da semana, vez por outra dão uma esticada a Itupiranga e voltam em seguida. “Sofri alguns acidentes, mas nunca abandonei essa paixão que é a bicicleta”, diz, orgulhoso.

Tio Nelson reconhece que a Rodovia Transamazônica está bem melhor atualmente do que no passado, mas alerta as autoridades sobre a necessidade de construir ciclovias em vários pontos da cidade, já que o número de ciclistas explodiu nos últimos anos e é preciso garantir a segurança deles.

Jael Sanches: menos 11 quilos em dois meses só pedalando bicicleta

O CICLISTA QUE USA CAPACETE DE MOTO

No Grupo do Tião Nelson, um ciclista (quase sempre calado) se destaca por sua vestimenta e, principalmente, por um acessório “despradonizado”. É Francisco da Silva, conhecido como “Pastor”, que usa capacete de motociclista e, quase sempre, pedala de calça jeans.

Ele conta que resolveu usar o capacete de motoqueiro depois de um acidente que sofreu três meses atrás, em frente à Agência do INSS em Marabá, quando um caminhão passou muito perto dele, que acabou caindo num buraco, perdendo o controle de sua bicicleta, bateu o queixo no chão e fraturou o maxilar em três lugares.

Passou por cirurgias, se recuperou e três meses depois voltou a pedalar com os amigos. Foi depois disso que ele passou a usar capacete mais resistente, para proteger a área que ainda está delicada. Ao ser questionado se não deveria parar, ele retruca: “Não posso. Eu tinha problemas cardíacos sérios e foi o ciclismo que me recuperou. Tenho de pedalar agora para o resto da vida”, diz o pastor de 53 anos de idade.

Jael Sanches: menos 11 quilos em dois meses só pedalando bicicleta

SOBRAM BICICLETAS, FALTAM CICLOVIAS

Quem frequenta as ruas de Marabá convive, cada vez mais, com ciclistas. Desde 2016, os deslocamentos na cidade por meio do modal cresceram assustadoramente. Em um trecho da Orla do Rio Tocantins, logo cedo ou à tardinha, tem ocorrido uma disputa diária por espaço que coloca em risco ciclistas e pedestres.

Como não há ciclovia na cidade, a área acaba sendo de compartilhamento entre ciclistas e pedestres, mas deveria ser de preferência para este último. Mas, no dia a dia, vale quem se impõe mais rápido. Não há sinalização e é aí que os ciclistas se tornam empoderados.

Em verdade, Marabá não tem uma ciclovia exclusiva. O único trecho onde os ciclistas sem sentem mais protegidos é no bambuzal, onde há uma limitação de passagem para automóveis por meio dos chamados tachões. Em ano eleitoral, não está na hora dos muitos grupos de ciclismo da cidade cobrarem dos candidatos para se comprometerem a elaborar um projeto moderno de mobilidade na cidade, que contemple ciclovias nos vários núcleos de Marabá?

Mas, para isso, é preciso fazer diferença entre ciclofaixas, ciclovias, ciclorrotas e, ainda, espaço compartilhado. As diferenças não são meros detalhes técnicos e podem influenciar na segurança do ciclista na via.

Veja as diferenças entre cada um

Ciclovia:
espaço na via totalmente segregado fisicamente para uso exclusivo de ciclistas. Pode ser tanto uni como bidirecional. É recomendada em avenidas com grande fluxo de carros, que possam gerar mais riscos a quem está de bicicleta. Exemplos: VP-8, VP-7, rodovia Transamazônica.
Ciclofaixa
Faixas para tráfego de ciclistas indicadas por aplicação de pintura e por colocação de dispositivos delimitadores, com o objetivo de separá-las do uso de veículos automotores. As ciclofaixas também podem ser uni ou bidirecionais. É usada quando o trânsito é mais lento e calmo.
Ciclorrota
caminhos, com ou sem sinalização, que representam uma rota recomendada para o ciclista, com o trajeto sem qualquer segregação ou sinalização contínua, sendo um espaço compartilhado com os veículos automotores. Deve ser implantada em vias de baixa velocidade e sinalizada para os ciclistas e motoristas. O ciclista deve andar no meio da pista, garantindo a visibilidade e proporcionando maior segurança. Não temos nenhum local em Marabá que possa servir como exemplo, mas algumas VP’s, na Nova Marabá, também podem receber esse tipo de espaço de mobilidade.
Espaços compartilhados
São áreas utilizadas por ciclistas nas calçadas ou pistas de rolamento, podendo ser compartilhadas com pedestres, no primeiro caso, ou com veículos, no segundo. Se utilizados nas calçadas, estes espaços deverão ser sinalizados de forma clara, indicando ao ciclista que a prioridade é do pedestre e, a este, alertando sobre a presença de ciclistas. Exemplo: Orla do Rio Tocantins.
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Benefícios da bicicleta para a saúde

Pedalar é uma das melhores formas de se exercitar. Se você ainda não acha que vale a pena, motivos para ser convencido não faltam:

Pedalar 30 minutos por dia pode diminuir pela metade o risco de desenvolver diabetes e obesidade;
Causa menos impacto nas articulações do que outras atividades físicas. Por ser um exercício que se pratica sentado, o peso do corpo é distribuído e não sobrecarrega nenhuma parte. É indicado para iniciantes na atividade física, além de ser um ótimo exercício para quem está acima do peso;
Ajuda a prevenir doenças cardíacas, infartos e pressão alta;
Promove o bem-estar físico;
Aumenta a qualidade de vida e reduz o risco de depressão;
Trabalha os grandes grupos musculares das pernas, além de estimular a contração do abdômen, ajudando a tonificar mais da metade do seu corpo;
• Intensifica a irrigação sanguínea nos órgãos genitais e vasos pélvicos, aumentando a performance nas relações sexuais (precisa mesmo de mais um motivo?);
Estimula a liberação de endorfinas e os níveis de serotonina, fazendo o indivíduo ser mais feliz e ter um sono saudável;
Reduz o colesterol e triglicerídeos;
Diminui a pressão arterial;
Melhora o sistema imunológico;
Garante boa forma e fôlego ao seu praticante.

O que saber na hora de comprar a 1ª bike?

Foi-se o tempo em que comprar uma bicicleta era só ir a uma loja comum de eletrodomésticos e adquirir uma Barra Circular da Monark ou uma Caloi por um preço baixo. O novo consumidor desse segmento busca bicicletas com maior valor agregado, numa clara opção pela mobilidade com mais qualidade, segurança e conforto.

Segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), o interesse do brasileiro por este tipo de produto é um fenômeno recente, que acompanha a evolução dos eletrônicos.

Se você está pronto para comprar a sua primeira bike, não ache que qualquer bike baratinha que dê pra pular um meio fio está ótima. Tenha em mente que um custo maior normalmente reflete qualidade equivalente. Com até R$1.200,00 já dá para comprar uma bike razoável para começar. Fique atento à qualidade do quadro — medidas, material, peso e etc. É a peça mais importante da bike, e se ela for boa, sua bike pode ser melhorada no futuro com a aquisição de novos componentes, e você certamente vai querer isso.

Saiba que uma bike barata pode até ter marcas renomadas estampadas nas peças mais ostensivas, mas que, componentes mais discretos, como os freios ou pedivelas, serão de qualidade questionável e muito possivelmente precisarão de uma troca ou manutenção logo. Aliás, falando em manutenção, em uma bike barata, o que você ganha nas peças, perde na frequência de ter que trocá-las.

Dicas para iniciar no ciclismo

Escolha uma modalidade

Se você quer fazer trilha, precisa de uma Mountain Bike; se quer velocidade, precisa de uma road, e assim por diante. Entenda as diferenças antes de comprar.

Defina um orçamento

Você vai se deparar com muitas opções de bikes novas e usadas, de muitas marcas, componentes e valores, então assim já dá uma boa filtrada. Inclua extras também como pedal, taquinho, sapatilha, capacete entre outros itens de segurança, além do bike fit (serviço que ajusta a bicicleta ao seu corpo).

Tamanho da bike

Sabia que as bikes têm tamanhos e variam de acordo com a sua altura? Não tente se encaixar em uma bicicleta que não seja adequada para você. Informe-se antes de comprar.

Cuidados básicos

Ciclismo requer equipamentos de segurança (capacete, luvas, roupas apropriadas para pedalar), pneus calibrados e corrente lubrificada, além de itens de reparo de pneu caso ele fure (bomba de mão, câmaras de ar e espátulas). Também é preciso se hidratar e nutrir antes, durante e depois do pedal.

Segurança

Pedale sempre à direita, sinalize suas intenções usando o braço, nunca use fones de ouvido para que você possa escutar o entorno, use roupas chamativas e luzes para que os motoristas possam te ver de longe, leve seus documentos e dinheiro para uma emergência e sempre tenha um contato de emergência que saiba para onde você está indo. Ah, existem vários aplicativos que rastreiam sua pedalada, como o Strava!

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correiodoc.correiodecarajas.com.br.br
Publicado em 15 de setembro de 2020.

Entrevistas e textos: Ulisses Pompeu 

 Produção de vídeo: Eleve Comunicação 

Layout/desenvolvimento: Dihon Albert 

Fotos: Jordão Nunes e Ulisses Pompeu 

 Revisão: Lucas Moreira

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